Entre apelidos, saudade e quilômetros sem fim, Jorge Pereira de Araújo construiu uma vida guiada pela estrada, pela família e por um amor antigo pelos caminhões
O nome dele é Jorge Pereira de Araújo. Pelo menos no documento oficial. Na
estrada, quase ninguém o conhece assim. Lá, ele é o Parente. Já na
família, desde pequeno, é chamado de Diego.
Cada nome carrega uma história. O apelido Parente nasceu anos depois,
quando Jorge trabalhou como garimpeiro e conviveu com famílias amazonenses
que se chamavam assim: parente pra cá, parente pra lá. Pegou. Já o Diego
veio da infância, coisa de casa, um nome carinhoso que a irmã adotou e
nunca mais largou.
Mas, no fim das contas, todos eles levam ao Jorge Pereira de Araújo, que é
um só: o Jorge que foi o menino que se apaixonou por caminhão ainda
pequeno e que, por mais de três décadas, segue vivendo da estrada com o
mesmo brilho no olhar — e um amor genuíno pelo transporte e pela Scania.
A vocação veio antes da profissão
A história de Jorge começou no interior do Rio de Janeiro. Filho de
caminhoneiro, ele cresceu acompanhando o pai, Manoel de Araújo, em viagens
curtas entre granjas e cidades da região. Era ali, dentro da cabine, que
tudo fazia sentido. “Nas minhas férias da escola, que foram poucas, eu
queria passear com meu pai de caminhão. Era uma viagem curta, um trajeto
do interior do Rio para a capital, para entrega dos frangos que ele
transportava. Aquilo era muito emocionante pra mim. Eu ficava em pé no
painel do caminhão, vendo o asfalto passar. Já estava no sangue aquela
vocação”, recorda Jorge.
Sem perceber, ele aprendia. Observava o pai, os outros motoristas, os
gestos, os sons, os tempos. Do jeito que ele compara até hoje: como um
músico que aprende vendo outro tocar.
Da ousadia ao primeiro grande volante
Aos 16 anos, Jorge já era ajudante de caminhão. Aos 18, com a habilitação
recém-chegada às mãos, fez o que só quem acredita muito em si mesmo tem
coragem de fazer: pediu emprego como motorista… e disse que tinha
experiência. Não tinha. Mas tinha algo tão poderoso quanto: atenção,
observação e vontade de fazer dar certo.
No dia do teste prático, o frio na barriga veio junto com um caminhão
trucado e um medo gigante. Mas ele passou. E nunca mais parou. Dali em
diante, a estrada virou casa. Vieram as viagens pelo Brasil inteiro, do
Norte ao Sul, transportando madeira, aço, cerâmica, combustível. Vieram o
casamento, os filhos, as ausências difíceis e a saudade constante. Vieram
também as escolhas: às vezes, ficar mais tempo fora; em outras, reduzir
rotas para estar mais perto de casa.
“A pior adversidade da estrada é a saudade da família. Você precisa de
preparo psicológico. A esposa também. E o caminhoneiro tem que ser
presente, mesmo ausente”, comenta.
Porque, para Jorge, ser caminhoneiro nunca foi só sobre dirigir. Sempre
foi sobre responsabilidade. “Quantos carros, pedestres e famílias passam
por você todos os dias? Tudo passa — e você precisa ir e voltar inteiro”,
reflete.
Quando a Scania entrou na história
O primeiro contato com a Scania aconteceu ainda nos anos 1990, com um 113
Topline da série Jubileu de Ouro. Foi ali que a relação deixou de ser
apenas profissional e virou paixão. Depois vieram outros modelos, outras
séries, outras marcas. Mas também veio a comparação inevitável: “Trabalhei
com muitos caminhões, mas a base da minha vida profissional foi construída
em cima de um Scania. Isso ninguém tira do meu currículo.”
A facilidade de condução, o conforto, a segurança, a forma como o caminhão
“conversa” com o motorista. Para Jorge, dirigir um Scania é diferente:
“Você não dirige. Você passeia”, afirma o motorista.
Essa relação o levou além do volante. Vieram as competições do Melhor
Motorista de Caminhão do Brasil (MMCB) – foi campeão nacional no Rio de
Janeiro em 2012 e alcançou o terceiro lugar na final nacional neste mesmo
ano, além de ter sido bicampeão na edição de 2014 -, os cursos, os
convites para palestrar sobre transporte sustentável e segurança. Vieram
também os momentos de aprendizado mais profundos: “Uma coisa é saber
dirigir caminhão. Outra é saber administrar caminhão. Foi ali que começou
meu aprendizado de verdade”, lembra.
Responsabilidade, segurança e gratidão
Hoje, Jorge atua no transporte de combustível na Simeira Logística,
conduzindo um bitrem de nove eixos, com até 26 metros de comprimento e 76
toneladas de peso bruto. Uma operação que exige atenção absoluta — e
respeito pela vida.
Mas, mesmo longe de casa, ele carrega uma certeza tranquila: fazer o
melhor sempre. “Estou a 1.500 quilômetros de casa, mas é como se estivesse
a 10. Porque sei que vou chegar inteiro”, afirma.
As manhãs começam cedo. Inspeção, silêncio, agradecimento. E o sol
nascendo, mesmo quando o dia vem nublado. “Quando eu acordo às seis da
manhã no caminhão, eu agradeço a Deus. Inspeciono tudo e vejo o sol
nascer. Mesmo nublado, é gratificante.”
Em 2024, esse cuidado com a vida na estrada virou reconhecimento. Em um
universo de cerca de cinco mil motoristas, Jorge teve o melhor índice de
prevenção de acidentes e foi premiado. “Por transportar carga perigosa,
somos monitorados 24 horas por dia por questão de segurança. Além disso, a
empresa tem um programa que se chama Informe de Quase Acidente. Funciona
assim: quando você consegue evitar um acidente, você informa a
transportadora. Ela vai na câmera, avalia o potencial daquele acidente que
você evitou e envia para a Raízen, que é o nosso cliente. O comitê de
segurança da Raízen avalia e a empresa premia os que mais se destacaram.
Em 2024 o meu informe foi o melhor e fui premiado em uma cerimônia, com
entrega de troféu, no mesmo resort onde a Scania já me levou anos atrás
para uma ação especial da marca. Mas dessa vez, levei meus filhos junto.
Foi muito especial”, conta.
Estrada como escolha — e missão
Jorge costuma brincar com uma frase que resume sua relação com a estrada:
“Onde as pessoas pagam para ir, eu sou pago para ir.” Ele fala das
paisagens do Sul, das plantações infinitas, das cidades que cruzam o
caminho. “É um privilégio que poucas pessoas têm”, reforça.
Aos 53 anos de idade, 36 de estrada e 26 no transporte de combustível, ele
não pensa em parar. Sonha, sim, em voltar a ser instrutor. Em ensinar. Em
multiplicar conhecimento. Porque, como ele mesmo diz, “o saber não ocupa
espaço”. “Quero ser um faroleiro. Iluminar o caminho de quem vem atrás”,
revela Jorge.
E deixa uma mensagem clara, firme e necessária para o futuro do
transporte: mais respeito, mais igualdade, mais humanidade. Para quem está
chegando agora. Para todos que dividem o mesmo asfalto. E especialmente
para as mulheres que ocupam cada vez mais espaço ao volante. “Olhem para a
mulher como colega de profissão. De igual para igual. Sem preconceito, sem
machismo”, pontua o motorista.
Porque seja Jorge, Parente ou Diego, na estrada ele segue sendo o mesmo:
alguém que aprendeu cedo que dirigir é responsabilidade, que a estrada
ensina sabedoria — e que a paixão pela profissão, e pela Scania, só cresce
com o tempo.
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